Os perigos da automedicação

Muita gente tem uma farmácia particular de remédios ou de plantas medicinais para lidar com contratempos como dor de cabeça e  febres. Mas a automedicação começa a se tornar um problema sério quando vira rotina. Não só porque sintomas recorrentes podem indicar algo mais sério, mas porque todo medicamento tem potencial nocivo quando corre solto nas suas veias.

Paracetamol

EFEITOS DESEJADOS: O remédio diminui o envio de mensagens aos receptores de dor e atua na regulação da temperatura do corpo, baixando a febre. Quando o paracetamol é metabolizado pelo fígado, uma pequena parte se transforma em uma substância tóxica, a NAPQI, que na maioria dos casos é rapidamente eliminada.

EFEITOS INDESEJADOS: Para adultos, a partir de 4 gramas por dia ou 1 g de uma vez só, o fígado pode não dar conta de toda a NAPQI produzida. Nesse caso, aumenta o risco de lesões irreversíveis e falência do órgão. As crianças são ainda mais vulneráveis.

Parte das overdoses de paracetamol é intencional, mas existe um grande número de pessoas que passa da medida sem perceber. Ou porque acha que a droga é 100% segura — e nenhuma é — ou por desconhecer que muitos outros remédios para dor, coriza, febre, alergia e inflamação contêm o princípio ativo.

Digamos que você tome um Tylenol para febre (750 mg de paracetamol) e um Resfenol (400 mg) para coriza, congestão nasal e outros desconfortos do resfriado. É 1,55 grama por dose, o que já traz riscos para o fígado, já que o órgão metaboliza melhor até 1 grama de cada vez.

Bom, essa dosagem quatro vezes ao dia dá 6,2 gramas, enquanto o ideal para não sobrecarregar o fígado é de 4 gramas para baixo. Se você ainda por cima mandar aquele remedinho para relaxar a musculatura depois de um dia tenso no trabalho, a conta aumenta.

Um comprimido de Torsilax, o décimo medicamento mais vendido no Brasil em 2015 e o segundo em faturamento, coloca 300 mg de paracetamol a mais na sua corrente sanguínea. Se suas noites forem frequentemente banhadas a três doses de álcool, o fígado, que a essa altura estará tomando uma lavada das NAPQIs, vai pedir para sair. Tomar paracetamol para curar ressaca, então, é apagar fogo com gasolina.

Ácido acetilsalicílico (aspirina)

EFEITOS DESEJADOS: A aspirina é três em um. Em baixas dosagens, até 1 grama, funciona contra dor e estágios leves de febre. Acima dessa quantidade, inibe processos inflamatórios, principalmente as atrites.

EFEITOS INDESEJADOS: A overdose costuma acontecer de forma acidental, principalmente com idosos, que usam doses maiores do remédio, e crianças pequenas. Oito comprimidos são suficientes para aumentar o risco de excesso de acidez no sangue e baixa acentuada de glicose, causando choque cardiovascular e insuficiência respiratória — distúrbios que podem levar à morte. Por causar queda nos níveis de açúcar, qualquer dosagem de aspirina pode causar hipoglicemia em diabéticos que tomam medicamentos para controlar a doença.

A aspirina e outros anti-inflamatórios também não devem ser usados antes de procedimentos cirúrgicos, mesmo os mais simples, como arrancar um dente ou uma unha encravada. Quando existe um corte na pele, as plaquetas se juntam e formam tampões para não deixar o sangue escapar. A aspirina inibe essa agregação e deixa a porta aberta para hemorragias.

Usar o remédio junto com outro anti-inflamatório ou álcool também é mau negócio: aumenta as chances de úlcera e sangramentos estomacais e intestinais severos.

Omeprazol

EFEITOS DESEJADOS: Em vez de neutralizar, como fazem os antiácidos, o omeprazol e outros medicamentos da mesma família inibem a produção do suco gástrico. Com menos líquido irritante no pedaço, surge o alívio da dor. O remédio também ajuda a prevenir e a cicatrizar lesões das mucosas.

EFEITOS INDESEJADOS: A segurança dos inibidores de ácido estomacal não foi estudada no longo prazo. O que existem são relatos de problemas com o uso por grandes períodos. Um deles é o efeito-rebote. Com a inibição da produção de ácido clorídrico, o organismo tenta compensar a falta liberando mais gastrina, que estimula a produção do ácido.

Se esse mecanismo é acionado muitas vezes, pode gerar excesso de gastrina. Aí, quando você deixar de tomar omeprazol depois de um tempo, uma enxurrada de ácido estomacal faz suas crises piorarem — e você volta correndo para o comprimido. É um círculo vicioso.

Tem também aqueles efeitos colaterais dos antiácidos, como o aumento do risco de infecções e da dificuldade em absorver nutrientes com uso prolongado sem prescrição. O desequilíbrio das quantidades de minerais pode levar a uma baixa severa dos níveis de magnésio. E isso pode trazer problemas ao coração.

O omeprazol e outros inibidores de ácido clorídrico em geral são seguros e eficientes. Mas, como não dá para saber se você se enquadra na regra ou na exceção, melhor acompanhar com o médico os efeitos dele no seu corpo caso esses remédios sejam companheiros de longa data.

Amoxilina

EFEITOS DESEJADOS: Antibióticos matam ou paralisam a maior parte das bactérias invasoras. As que sobram podem ser engolidas pelas células de defesa ou por outro tipo de antibiótico.

EFEITOS INDESEJADOS: O abuso leva à proliferação de bactérias resistentes a antibióticos, o que é um perigo para a saúde pública.

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